Artes e Ofícios

Diversas são as artes e os ofícios tradicionais praticados no concelho de Santiago do Cacém. Uns encontram-se em vias de extinção pelo facto de não encontrarem utilidade no espaço quotidiano, outros encontram novas utilidades na vida e, alguns, porque teimam em persistir, nunca deixam de ser úteis ou mesmo imprescindíveis. São artes onde o artesão transmite toda uma vivência passada no meio rural.

Tanoaria / Abegoaria

Na Freguesia de Santa Cruz, o Ti Zé da Ana (José Maria), abegão desde os 24 anos, arte que aprendeu com um parente, e tanoeiro desde os 40, «via com os olhos e ia fazer com as mãos».

Noutros tempos chegou a construir carros completos. Hoje em dia pouco faz, mas tenta aproveitar os conhecimentos de uma vida inteira na execução de novas peças, como rodas de carroça, mas de tamanho menor. Começa por construir o centro da roda, a massa, na qual coloca os raios e as pinas. Por fim, coloca o arco de ferro em torno da roda.

Da tanoaria, já só faz arranjos em pipas e tonéis. Construiu muitas pipas em carvalho do Brasil, castanho, acácia e pau ferro.

Ferradoria

Joaquim Contreiras, 86 anos, é ferrador desde os 14. Recorda com saudade os tempos em que no Largo dos Caeiros circulavam diversos animais usados no transporte e nos trabalhos agrícolas. Actualmente, ainda ferra alguns animais, poucos cavalos, éguas e mulas. Bois e vacas já não se ferram. Faz ferraduras em miniatura para dar sorte a quem acredita nessas coisas.

Corta em primeiro lugar a barra de ferro com a talhadeira, ateia a forja com o fole, aquece a barra e dobra-a batendo com a marreta na bigorna dando-lhe a forma de uma ferradura. Com o ponteiro faz as craveiras e arrefece a ferradura, pousando-a num balde de água fria que está sempre ali ao lado.

Fabrico de Calçado

A partir dos anos 60, o fabrico artesanal de calçado começou a entrar em decadência e, actualmente, os sapateiros que conservam as portas abertas limitam-se ao arranjo de calçado.

Dos inúmeros sapateiros existentes no concelho, José Rodrigues Morais, em Santiago do Cacém e Francisco Rosalino Guerreiro, na Sonega (Cercal do Alentejo), fazem botas caneleiras e sapatos em couro, tipo de calçado que é cada vez mais procurado devido à resistência e conforto que o caracteriza.

Confeccionam, nas suas pequenas oficinas, botas e sapatos por encomenda, tendo por medida o pé que usará o artigo já acabado.

Usam como matéria prima, pele de vitela e cabra ou calfe preto e castanho.

As ferramentas que utilizam na confecção de calçado são diversas, desde os simples alicate e martelo, às inúmeras cevelas, turquezas, lixas, grosas e ferros de acabamento. Para coser as peles usam linhas e ceras.

Peneiras e Joeiros

As peneiras já quase não encontram outra utilidade senão a meramente decorativa. Antigamente faziam muita falta e até era um bom negócio, segundo Joaquim Nóbua (Cercal do Alentejo), mas agora já há o pão cozido que vêm trazer à porta e por isso deixaram de ser úteis. Mas este artesão ainda se entretém com esta actividade.

Joaquim Revira (Alvalade), dedica-se à manufactura de peneiras e joeiros, recebendo ainda muitas encomendas. As peneiras são de madeira de pinho com rede de arame ou nylon. Os joeiros são em madeira com uma rede de arame confeccionada minuciosamente.

Latoeiros e Funileiros

Joaquim Revira é igualmente latoeiro e arameiro desde os 12 anos, arte que aprendeu com o pai, e o pai com o avô que era espanhol.

Alguidares, regadores, baldes, infusas para azeite, candeeiros a petróleo, tabuleiros e gaiolas são por ele elaborados em chapa de flandres ou chapa zincada.

A latoaria de António Baptista é única na cidade de Santiago do Cacém. Fabrica todo o tipo de objectos tradicionais em chapa zincada, alumínio ou inox: baldes, regadores, cântaros, bebedouros para animais e muitos outros objectos.

Cestaria

O cesteiro é geralmente um trabalhador rural que nas horas livres se dedica a esta actividade.

A produção artesanal de um cesto começa pelo fundo, de onde partem os prumos. No concelho de Santiago do Cacém ainda podemos encontrar dois artesãos que se dedicam a esta arte e lhe conhecem os segredos: Júlio Rodrigues (Giz - Freguesia de Santo André), usa, como matéria prima, a cana, enquanto Manuel da Silva (Arealão - Freguesia de Abela ), prefere o vime.

Correarias

Selas, arreios, coleiras para animais, bancos de caçador e cartucheiras são artigos em couro que ainda têm alguma procura devido à criação de gado, ao desenvolvimento das actividades equestres e à caça.

A Correaria J.P. (Santiago do Cacém), produz artigos para animais, artigos de caça e confecciona vestuário em pele, há cerca de 15 anos, gosto que foi transmitido de pais para filhos.

O Artesanato Godinho (Cercal do Alentejo), dedica-se ao fabrico de artigos em pele de tradição alentejana mas em constante reno-vação, satisfazendo o gosto e pragmatismo dos novos clientes.

Ambos os artífices confeccionam e vendem nas suas oficinas uma grande variedade de artigos de uso comum (malas, carteiras e cintos de diversos modelos).

Cadeiras e Bancos

Os cadeireiros são normalmente trabalhadores rurais que nas horas livres se dedicam a este ofício, reconhecendo com alguma tristeza que não há ninguém que queira aprender. «Há que incentivar os jovens para que não se percam os saberes locais » diz José dos Santos Fonseca (S. Domingos), um dos poucos artesãos que fabrica cadeiras e bancos em madeira de choupo ou laranjeira com o empalhado em bunho.

O bunho, apanhado junto das ribeiras,. é seco e, posteriormente, são empalhadas as cadeiras com uma perfeição invejável, preceito muito antigo na região.

Manuel Francisco Gonçalves (Cercal do Alentejo), dedica-se igualmente ao fabrico de cadeiras em madeira de castanho, com fundo em madeira ou empalhado. Trabalha a madeira com a maior das perfeições, com um torno eléctrico por ele inventado a partir de uma máquina de costura antiga à qual aplicou um motor. Inventou também uma outra máquina, à qual apelida de ajudante pois a função desta é segurar as madeiras. Outrora dedicava-se também à confecção de peças de mobiliário, actualmente ainda faz alguns arranjos.

Para além das cadeiras que fabrica em miniatura, Joaquim Augusto também ocupa o seu tempo na confecção de bancos e cadeiras em madeira de choupo ou laranjeira com empalhado em corda. Vasco Sobral (Relvas Verdes), mais conhecido por “Vasquinho”, fabrica e empalha cadeiras com assento de sisal, arte que pratica há muitos anos e que continua a ter muita procura, quer no arranjo de cadeiras velhas, quer no fabrico de novas peças.

Joaquim Martins dos Santos (Cercal do Alentejo), dedica algum tempo à elaboração de bancos tradicionais alentejanos, em cortiça.

Cocharro de Cortiça

Objecto tradicional do Alentejo, o cocharro ou cocho, de cortiça, era usado para beber água durante os trabalhos do campo. Nas fontes, havia sempre um para beber água fresca e mesmo em casa era normal beber pelo cocharro.

Manuel Jacinto (Cercal do Alentejo), aproveita a cortiça para fazer cocharros de diferentes tamanhos que têm muita procura e são usados como objecto decorativo.

Escultura em Madeira

É com simples objectos, como o canivete que, Sérgio Albino trabalha, esculpindo em madeira de choupo interessantes reproduções expostas na sua taberna, na Portelinha (Cercal do Alentejo). Reproduz aquilo que mais o sensibiliza: o trabalho no campo, os carros, os animais, as alfaias agrícolas e as pessoas.

Trabalha por prazer, como forma de ocupar o tempo, para preservar uma cultura que tende a desaparecer.

Réplicas de Carroças Típicas

Sidónio Leal Neves (Santiago do Cacém), ocupa os seus tempos construindo modelos de carroças típicas, em madeira. Com a plaina, o torno, diversos formões e grosas, já executou 20 carros e carroças de tracção animal, de que destacamos: a carroça alentejana, o carro de bois, carroça da cortiça, carroça algarvia, carroça do aguadeiro, carroça do oleiro e a curiosa carroça da recolha dos dejectos.

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